quarta-feira, 28 de maio de 2014

A nuvem se beija, se une, se funde e se transforma em algo que não existia. O amor é isso?

A episteme e a doxa não são uma dualidade da filosofia, são uma dualidade essencialmente humana - sua divisão entre corpo e alma.

O urubu no alto voa. Some nas nuvens e deixa de existir. Depois ressurge de onde menos se espera.

O tempo é o vento que nos arrasta feito nuvens errantes (para o nada? para o fim?) e nos desgasta.

Talvez nossa vida seja um livro e morte seja o fim da história.

Viver é mais que um ato de vontade, é um ato de coragem.

O céu está caindo. Que belo espetáculo. Caia sobre mim.

O romantismo é minha natureza. O exagero, o pessimismo, a loucura, o langor e a melancolia estão em minha formação assim como os músculos, os ossos e os órgãos que me constituem. Estão em mim antes que eu percebesse. São meus ingredientes invisíveis.

27/05/2013 - Nuvens dançando no imenso azul do céu.


Retrato 1

     Onze horas da noite, entrei no ônibus para voltar para casa e sentei ao lado de uma moça. Ela estava encostada à janela, perto da porta traseira. Tinha os cabelos presos, longos e tingidos de loiro com luzes. Vestia casaco moletom com zíper, jeans e tênis. Lia um livro com atenção. 
     O ônibus pôs-se em movimento e ela continuou a ler. Tive curiosidade sobre o título do livro, pois talvez fosse muito interessante ou então ela tinha urgência em ler por algum outro motivo - falta de tempo, talvez. Parece-me que os livros que lemos dizem algo sobre nós, não apenas porque parte deles permanece, mas pode revelar ou dar pistas sobre características particulares, formas de pensar, agir ou sentir.
     Então esgueirei os olhos sem mexer muito o rosto para ser discreta e descobri: era O Capital, de Karl Marx. Fiquei surpresa! É raro ver alguém lendo esse livro, ainda mais em um ônibus veloz pela falta de trânsito. Devia ser estudante - pensei. Reparei no papel que tinha em uma das mãos para marcar a página. Era um panfleto verde sobre uma chapa estudantil de uma universidade pública. Estava confirmado, era mesmo uma estudante.
     Desviei a atenção e fiquei durante algum tempo observando a escuridão do lado de fora da janela. Havia luzes pequenas e distantes. Aquele trecho não possuía iluminação pública. Devo ter pensado sobre vários assuntos, provavelmente a maioria deles não tinha muita importância. Ela então fechou o livro. Tive outra surpresa: - Que livro grosso! - pensei. A mochila dela devia estar muito pesada. Lembrei de quando andava com mochila no ônibus. Também estava sempre pesada, mas também tinha de tudo um pouco.
     Tentei imaginar o curso dela, mas me distraí com outra coisa. Ela pegou seus fones de ouvido, ajustou-os e ligou a reprodução de músicas. No momento não tentei imaginar o que ela ouvia (mas estou tentando fazer isso agora). Voltei a admirar a paisagem de luz e sombras. De repente percebi um reflexo, o reflexo dela. Parecia que ela chorava, sim, ela estava chorando. Não sei explicar a situação incômoda em que fiquei. Tinha vontade de falar com ela, tentar amenizar sua dor... Por outro lado, eu, mais do que ninguém, sabia da importância da privacidade e da calmaria que vem depois da tempestade (de lágrimas, inclusive).
     Essa situação se estendeu por algum tempo. Observei as cabeças das outras pessoas. Ninguém havia reparado na moça. Engoli a falta de saliva. Ela também observava a escuridão enquanto ouvia música e aparava as lágrimas. Tentava ser discreta, mas sem tentar esconder nada. Era um choro silencioso.
     A tensão permaneceu até o momento em que ela pegou seu telefone e fez uma ligação. Disse que já estava chegando. Aparentemente alguém iria buscá-la na parada de ônibus, afinal estava tarde. Ela recolocou seus fones e reconduziu sua atenção para a janela. Eu também fiz uma ligação, pois alguém também iria me buscar na parada. Quando desliguei comecei a imaginar que talvez ela tivesse problemas em casa. As outras pessoas do ônibus, elas também deviam ter problemas em casa também, assim como eu e provavelmente ela. Mas nem todos lidam com os problemas da mesma forma.
     O que posso dizer é que tive medo de fazer contato. Aquela situação me marcou e a imagem daquela jovem permanece comigo desde aquele dia - ou noite, se preferir. Sinto como se não devesse esquecê-la. Foi como se eu sentisse um pouco da dor dela. E quando relembro este caso revivo toda aquela situação, toda aquela tensão e a indecisão de dirigir-lhe ou não a palavra. E agora ela faz parte de mim. Nem sei o nome dela...



     Entregou-se à tristeza como que domada por um sono e sucumbiu. 


     O verbo é sentir. Nossos sentimentos são cavalos indomáveis distorcendo a mente, disparando uma chuva torrencial que alaga tudo. São tão nossos, tão escondidos, tão profundos... Compartilhá-los com alguém é transferir poder e importância a essa pessoa; é revelar uma pedrinha preciosa; materializar o invisível.